-             R E V I S T A    N A V A L            -              

O Encouraçado Rio de Janeiro


Paulo de Oliveira Ribeiro

 

O encouraçado Rio de Janeiro sendo lançado ao mar em 22 de janeiro de 1911

 

Introdução

No início do século o Brasil possuía uma marinha de guerra restrita constituída basicamente por uns poucos navios modernos e alguns outros obsoletos veteranos, era necessário uma profunda modernização da esquadra para poder adequá-la ao novo século. Vários altos comandantes brasileiros queriam formar uma poderosa esquadra nos moldes europeus e colocar o Brasil novamente entre as mais poderosas potências marítimas do mundo, para tanto no final 1906, foi confeccionado um ambicioso programa de reaparelhamento naval iniciando uma grande corrida armamentista na América do Sul, diretamente entre o Brasil e a Argentina, esse plano naval incluía 3 poderosos encouraçados tipo Dreadnought , entre eles o mais poderoso navio de guerra já encomendado por qualquer nação, o encouraçado Rio de Janeiro.

 

A encomenda

Em 15 de novembro de 1906 assumiu o Ministério da Marinha o Almirante Alexandrino Faria de Alencar, defensor ferrenho de uma grande esquadra nos moldes europeus para o Brasil, nucleada em navios encouraçados pesados, e com apoio do Ministro das Relações Exteriores da época José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco, conseguiu a aprovação de seu ambicioso plano de reaparelhamento naval conhecido como "Plano Naval de 1906" aonde aparecia o mais poderoso navio de guerra do mundo o encouraçado Rio de Janeiro um super Dreadnought como jamais fora visto até então, era o maior em tudo e o mais bem armado em todos os sentidos realmente um navio impressionante e capaz de colocar o Brasil como a mais poderosa potência marítima da América do Sul.

A construção do encouraçado Rio de Janeiro ficou a cargo do estaleiro britânico Vickers Armstrong e foi iniciada em 08 de janeiro de1910, seu casco era o de nº 792, porem a construção foi paralisada em 07 de maio de 1910 pelo Contra-Almirante Huet de Bacellar, chefe da Comissão Naval Brasileira encarregada do recebimento do navio, para que pudesse ser definido um novo projeto, pois devido aos rápidos avanços tecnológicos da época o projeto como estava estaria fadado a tornar o encouraçado Rio de Janeiro obsoleto tão logo estivesse pronto. Após a avaliação de varias propostas enviadas pelo estaleiro ao governo brasileiro esse acabou decidindo pelo denominado "Estudo 653", sendo então um contrato assinado em 10 de outubro de 1910 e a construção reiniciada em 18 de novembro de 1910.

Porém em 15 de novembro de 1910 assumia o cargo de Ministro da Marinha o Almirante Joaquim Marques Batista de Leão, que decidiu viajar a Europa visitando vários estaleiros em diversos países, e quando retornou ao Brasil solicitou novos estudos ao estaleiro Vickers Armstrong, já que o contrato estipulava que o projeto em andamento teria que ser aprovado pelo novo Ministro da Marinha, a construção do encouraçado Rio de Janeiro foi novamente interrompida em dezembro de 1910, vários outros projetos foram remetidos ao Brasil, ficando como definitivo o denominado "Estudo 690".

Dessa forma a construção do encouraçado Rio de Janeiro foi mais uma vez reiniciada em 14 de setembro de 1911, sendo lançado ao mar em 22 de janeiro de 1913, já na gestão do Almirante Manuel Inácio Belfort Vieira como Ministro da Marinha. Logo após o Rio de Janeiro ter sido lançado ao mar o governo brasileiro começou a perceber vários problemas devido as enormes restrições orçamentárias sofridas durante sua corrida armamentista com a Argentina, e que já consumira mais de 25% de todo o orçamento nacional, o Brasil ainda tentou um empréstimo de 11 milhões de libras junto a bancos britânicos em maio de 1913, mas sem sucesso, e após o colapso sofrido pela industria brasileira da borracha, acompanhado pela baixa no preço do café no mercado internacional, a situação tornou-se cada vez mais insustentável e o governo brasileiro não teve outra alternativa a não ser colocar o navio a venda, por 2.750.000,00 libras, e cancelar irremediavelmente a encomenda em 02 de agosto de 1913, sendo o navio então colocado em disponibilidade e sua construção paralisada.

O interesse da Turquia

O Sultan Osman I em testes de mar, notar o bote a meia nau que depois foi retirado pelos britânicos após o confisco do navio.

Com a disponibilidade do encouraçado Rio de Janeiro o Império Otomano (atual Turquia) se interessou pelo navio e fez uma grande campanha popular para poder arrecadar fundos e adquirir o Rio de Janeiro, juntamente com um outro navio, finalmente em 28 de dezembro de 1913 a venda foi concretizada, sendo então o Rio de Janeiro redenominado Sultan Osman I, tendo sua construção reiniciada, com o navio voltando a ser docado para as modificações a serem realizadas a pedido do novo feliz proprietário, que incluíam uma suntuosa mobília e diversos luxuosos adornos internos.

O governo turco estava desde a aquisição pressionando o estaleiro para cumprir a data final de entrega prevista para o fim do mês de julho de 1914, pois o Sultan Osman já fora adquirido em estagio bastante avançado de construção. Porém em 31 de julho de 1914, com a eminência da eclosão da 1ª Guerra Mundial, o então Primeiro Lorde do Mar Britânico (ministro da Marinha) Winston Churchill solicitou informações ao estaleiro Vickers Armstrong sobre as condições do Sultan Osman I e do outro navio, também adquirido pela Turquia, chegando a conclusão de que na crise que estava delineada entre a Inglaterra e a Alemanha esses navios não deveriam ser entregues ao comprador, decidindo então pelo confisco dos dois navios turcos, que estavam praticamente prontos e já pagos!!!

Em 01 de agosto de 1914, apenas 24 horas antes do governo turco assumir oficialmente o navio, uma companhia de infantaria britânica subiu abordo totalmente armada e a comissão naval turca foi escoltada para fora do Sultan Osman I, sendo então o navio confiscado e incorporado a Frota Britânica de Dreadnoughts sendo novamente rebatizado, desta vez como HMS Agincourt.

O perfil baixo do Agincourt tornava-o um alvo difícil.

Após o confisco dos dois navios turcos o governo britânico enviou um telegrama ao Império Otomano em 03 de agosto de 1914 dizendo que "lamentavam sinceramente o ocorrido mas que os navios seriam necessários contra a Alemanha na eminente guerra", porém nada foi mencionado sobre o ressarcimento financeiro e/ou diplomático, já que os navios confiscados estavam pagos e eram portanto legitima propriedade do governo turco.

Em conseqüencia a Turquia aliou-se com a Alemanha no mesmo dia 03 de agosto, e essa aproveitando-se da situação enviou dois de seus melhores navios de guerra a Turquia o cruzador de batalha Goeben e o cruzador ligeiro Breslau para "ressarcir os turcos pela perda sofrida", oferecendo-os em substituição aos navios confiscados, com suas respectivas tripulações, esse ato agradou muito o Império Otomano que os aceitou imediatamente.

Posteriormente a Turquia foi forçada a entrar na 1ª Guerra Mundial ao lado da Alemanha e contra a Inglaterra, com quem pretendia aliar-se antes do conflito.

O HMS Agincourt

O HMS Agincourt a frente do 4º Esquadrão Naval

O ex Rio de Janeiro e ex Sultan Osman I foi novamente modificado, desta vez para adequá-lo aos padrões britânicos, os vários espaços vazios abaixo da linha d'água entre os alojamentos dos oficiais e das praças foi preenchido com a instalação de diversas anteparas e uma maior divisão dos amplos compartimentos para melhorar a flutuabilidade em caso de avaria de combate, pois na situação em que se encontrava o efeito de um torpedo poderia ser devastador, o guindaste para os botes, instalado entre as torretas centrais de 305mm foi removido para não restringir seus movimentos evitando que caísse durante as salvas dos seus canhões.

Finalmente em 25 de agosto de 1914 o navio foi incorporado, já como HMS Agincourt, tendo como primeiro comandante o Capitão de Mar e Guerra Douglas Romilly Lothian Nicholson e partindo imediatamente para se juntar ao restante da Marinha Real no teatro de operações do Atlântico Norte, suas acomodações eram tão luxuosas que o navio ficou conhecido como "The Gin Palace" pelo restante da esquadra.

Em 31 de maio de 1916 o HMS Agincourt seguia, como nau capitânia da Sexta Divisão Naval Britânica, para tomar parte da maior batalha naval da 1ª Guerra Mundial, a Batalha da Jutlândia. O Agincourt foi o primeiro navio a localizar a Frota de Alto Mar Alemã imediatamente abrindo fogo com todo o seu poderoso armamento, durante o curso da batalha 144 salvas foram disparadas com suas baterias principais e 111 com suas baterias secundárias, o Agincourt atingiu pelo menos dois navios alemães, o Kaiser e o Markgraf, durante o combate, mas nunca ouve qualquer evidencia de que algum navio tivesse sido afundado pelas salvas disparadas por seus canhões.

Por sorte o Agincourt não foi atingido naquela batalha, pois um torpedo alemão disparado contra ele parou pouco antes de atingi-lo.

Após a Batalha da Jutlândia a Sexta Divisão retornou a Scapa Flow em 02 de julho de 1916 e o HMS Agincourt não foi mais usado em combate durante o restante da guerra.

 

O reinteresse do Brasil

Em 1919 o HMS Agincourt passou para a reserva, foi então oferecido de volta ao governo brasileiro, que logo manifestou seu interesse novamente pelo navio, sendo o mesmo então reativado e voltando ao estaleiro para sofrer uma ampla modernização que incluía a conversão de seu já obsoleto sistema de propulsão a carvão para propulsão a óleo e adicionando nova blindagem extra. Porém logo que os trabalhos de modernização foram iniciados o Brasil desistiu novamente de adquirir o navio após avaliar cuidadosamente a situação.

O HMS Agincourt ainda operou até 1921 quando foi definitivamente desativado, devido as limitações impostas pelo Tratado Washington, acabando por ser demolido em dezembro de 1922, com menos de 10 anos de serviço ativo prestado.

Se o governo brasileiro não tivesse cancelado a aquisição do encouraçado Rio de Janeiro, pela primeira vez, em 1913 nós provavelmente teríamos perdido o navio, quando da eclosão da 1ª Guerra Mundial, da mesma maneira como aconteceu com a Turquia.

Planta do HMS Agincourt

Características técnicas: (Como Rio de Janeiro)

Comprimento: 204,76 metros
Largura: 27,13 metros
Calado: 8,53 metros
Deslocamento leve: 27.500 toneladas
Deslocamento carregado: 30.250 toneladas
Potência Máxima: 40.279 cv
Velocidade Máxima: 22,42 nós
Hélices: 4 montadas em 4 eixos
Capacidade de carvão: 3.200 toneladas
Blindagem no casco: no meio nau entre 5,9 e 9 polegadas e 3 polegadas nas extremidade a proa e popa
Blindagem no convés principal: 2,5 polegadas em quase toda a extensão
Blindagem nas torres principais: 10 polegadas a vante, 4 polegadas nas laterais e 4 polegadas em cima
Armamento principal: 14 canhões de 305mm/50 montados em 7 torres duplas
Armamento secundário: 20 canhões de 140mm/50 montados em torres singelas
Armamento ante-aéreo 10 canhões de 76mm/50 montados em reparos singelos
Torpedos: 1 lançador triplo para torpedos anti-navio de 533mm
Tripulação: 1.207 oficiais e praças