-             R E V I S T A    N A V A L            -              

O Esquadrão Alemão do Extremo Oriente na Primeira Guerra Mundial


André Luís Behr Ferro

Quando a I Guerra Mundial foi declarada em Agosto de 1914, a principal frota de cruzadores alemã fora do Mar do Norte e Mar Báltico, se baseava no esquadrão da Ásia Oriental, comandado pelo Vice-Almirante Maximilian Von Spee e baseada em Tsigtao (possessão alemã na China, atual Qing-Dao), composta dos Cruzadores Pesados (blindados) Scharnhorst (capitânea) e Gneisenau, e de três Cruzadores Leves, o Emden, o Leipzig e o Nürnberg . No Caribe estavam dois dos mais rápidos Cruzadores Leves, o Karlsruhe e o Dresden, e no Oceano Índico o Königsberg. O Alto Comando Naval Alemão resolveu assim distribuir essa força:

O Königsberg  do Comte. Max Looff

 

O dresden fundeado.

Foi então que os ingleses decidiram bloquear o canal mais largo do delta, afundando o navio mercante Newbridge, e a 11 de Julho de 1915 enviaram uma força conjunta de dois antigos monitores Severn e Mersey, armados com canhões pesados (12 pol.) e com calado reduzido, apoiados por 2 hidroaviões Sopwith 920 usados para observação aérea e direcionando as salvas dos dois monitores para atingir o Königsberg, e isso somente na segunda tentativa de ataque naquele que foi o primeiro ataque combinado aero-naval da história da guerra moderna. Após severamente atingido Loof ordenou que se abandonasse o navio e se detonassem as cargas explosivas no fundo do casco.

O Severn, juntamente com o seu irmão Mersey, foram construídos para a Marinha do Brasil, porém essa desistiu da compra desses navios.

Em Setembro de 1914, o Comandante do Emden, Capitão Karl Von Muller, solicitou permissão ao Almte. Von Spee para agir sozinho no Oceano Índico, ao que Von Spee autorizou prontamente seguindo o raciocínio que "um simples cruzador leve poderia se abastecer dos navios capturados e manter-se durante muito tempo". Como havia recompensas suficientes a serem ganhas naquela área, o Emden camuflado e com uma chaminé falsa, passou pelo Canal de Sumatra iniciando sua série de ataques dia 07 daquele mês, e afundando nove navios em apenas uma semana de operação. Tais fatos, quando chegaram aos ingleses forçaram estes a redobrarem as escoltas dos comboios de tropas da Nova Zelândia e Austrália, tão necessárias no teatro de operações Europeu. Ao final de setembro, o Emden bombardeou o porto de Madras na Índia, destruindo as instalações portuárias e os depósitos de combustíveis ali, dirigindo-se, em seguida ao sul afundou mais dez navios mercantes.

O Emden antes da guerra teve em sua breve carreira como corsário o crédito no afundamento de dezoito navios mercantes.

 

o comandante de Von Muller do Emden

Em meados de Outubro o Emden executou uma das mais corajosas façanhas da guerra: penetrou no porto de Penang, na Malásia bombardeando as instalações portuárias e afundando o Cruzador Leve russo Zhemchug e o torpedeiro francês Mousquet antes de se retirar.

Depois de quase dois meses de destruição sem paralelo no Oceano Índico, a sorte do Emden parece tê-lo finalmente abandonado. O Cap.Von Muller decidiu atacar um novo tipo de objetivo: a estação de comunicações situada na Ilha Direction, no arquipélago das Ilhas Cocos no Pacífico, por onde passavam os cabos telegráficos submarinos que ligavam a Austrália ao resto do mundo. Chegando á ilha em 09 de Novembro, foram desembarcados 50 oficiais e marinheiros encarregados de destruir as instalações, tendo o navio se retirando para reabastecer. Mas o que Von Muller nem ninguém a bordo esperava, era avistar o Cruzador Leve Australiano Sydney, que escoltava um comboio da Nova Zelândia.

    

Os destroços do Emden (esq.) encalhado nos recifes das Ilhas Cocos, após confronto com o Cruzador australiano Sydney (dir).

Após a longa batalha que se seguiu, o Emden praticamente destruído pelos canhões de seis polegadas do Sydney, foi encalhado nos recifes de coral das ilhas Cocos. Era o fim do mais famoso cruzador alemão, que em sua guerra de corso ganhou o apelido de "Cisne do Oriente".

As Batalhas de Coronel e das Falklands:

Com o bloqueio aliado nos portos sob domínio alemão, e o esquadrão Asiático sendo caçado não só pelos cruzadores Aliados (franceses, russos, britânicos e australianos), mas também pela marinha Japonesa, o Almte. Von Spee decidiu reagrupar na Ilha de Páscoa e tentar forçar a passagem para o Atlântico pelo cabo Horn até a Alemanha, destruindo o que fosse possível em seu caminho.

O Scharnhorst (esq.) juntamente com seu irmão o Gneisenau (dir.), eram a espinha dorsal do Esquadrão Asiático de Von Spee

Assim, partiu com os Cruzadores Pesados de 11.000 tons. Scharnhorst e Gneisenau , mais os Cruzadores Leves Leipzig (Capt. Haun) Nürnberg e depois o Dresden (Capt. Ludecke) para essa missão. As forças inglesas naquela área eram Comandadas pelo Contra-almirante Christopher Craddock, sendo composta apenas pelos Cruzadores Blindados Monmouth (este mais antigo) e Good Hope, o moderno Cruzador Leve Glasgow, o navio mercante armado Otranto, mais o velho encouraçado Canopus. Este último Craddock decidiu deixar para trás devido a sua velocidade menos que a das outras unidades. As duas frotas inimigas se avistaram em 1º de Novembro de 1914 por volta de 17 horas nas águas da cidade chilena de Coronel, e Von Spee, auxiliado pelo anoitecer que projetava as silhuetas dos navios britânicos contra o pôr-do-sol, conseguiu nítida vantagem sobre a mal-formada esquadra britânica. Ás 19h30 o Mommouth estava em chamas e meia hora mais tarde o paiol de munições do Good Hope explodia matando Craddock e a maioria da tripulação. O Glasgow e o Otranto conseguiram escapar sofrendo alguma avaria, mas sem sequer conseguir socorrer os náufragos.

   O Good Hope , capitânea da Alm. Craddock  na Batalhe de Coronel

Monmouth , também afundado pelos navios alemães em Coronel.

 

O Almirante Von Spee

Nesse meio tempo, Von Spee já havia passado pelo Cabo Horn em sua viagem de volta á Alemanha, e sem desconfiar que tão poderosa frota inglesa se encontrava em Port Stanley, decidiu bombardear e destruir as instalações britânicas localizadas nas Falklands. Às 08h30 de 8 de Dezembro (um dia após a chegada de Sturdee) o esquadrão de Von Spee foi avistado a cerca de 20 milhas das ilhas. Não se sabe o que levou Spee a atacar a base britânica, mas o certo é que se ele tivesse ordenado um ataque imediato á esquadra inglesa, enquanto esta estava fundeada se reabastecendo a maioria ainda com as caldeiras apagadas, poderia ter infligido outra derrota aos britânicos de terríveis proporções. Contudo, logo que Spee foi avisado da presença de belonaves inimigas no porto ele ordenou seu esquadrão a não aceitar combate, dar meia volta, e prosseguir a viagem de retorno á toda velocidade. Com isto, condenou sua própria esquadra ao extermínio. As 10h48 o último navio da linha de Spee avistou a esquadra britânica vindo em sua direção, em velocidade maior sedentos por vingar Coronel. Como a perseguição prosseguia com troca de salvas ocasionais, por volta de 13h20 Spee deu a ordem para seus Cruzadores Leves se dispersarem para tentar escapar, enquanto o Scharnhorst e o Gneisenau se voltaram bravamente para enfrentar uma força superior em poder de fogo e blindagem. Sturdee também ordenou que seus Cruzadores Leves se separassem e dessem perseguição aos Cruzadores alemães. Os britânicos agora, ao contrário de Coronel, tinham total vantagem sobre os alemães: o mar estava calmo, o céu claro e havia um longo dia pela frente, pois restavam ainda 8 horas de luz do dia, além do que seus navios capitais eram melhor armados e mais blindados que os alemães. As horas que se seguiram viram uma devastação terrível nos navios de Spee, estes sendo atingidos de forma implacável e certeira a uma distância relativamente segura, com o Inflexible atacando o Gneisenau e o Invincible castigando o Scharnhorst. Ás 16h17 este último adernou e afundou sem deixar sobreviventes. A essa altura o Gneisenau já estava sofrendo canhoneio dos dois principais navios britânicos ainda mantendo uma distância segura em relação ao alvo. A agonia duraria mais uma hora e o Gneisenau, transformado agora numa massa disforme de metal retorcido e fumegante, insistia em não afundar. Para evitar que o navio caísse em mãos do inimigo, seu comandante deu ordem para que cargas de explosivos fossem detonadas entre os revestimentos do casco e as comportas fossem abertas. O que restava da tripulação deu três vivas ao Kaiser quando o navio deslizou para o fundo. Apenas 187 homens se sobreviveram sendo salvos pelos algozes britânicos.

O Invincible enviado ao Atlântico sul para enfrentar o esquadrão de Von Spee. 

O Cruzador Blindado Carnarvon .

Dos Cruzadores leves restantes sob o comando de Spee, O Nürnberg foi caçado e afundado pelo Kent , o Leipzig teve o mesmo destino, lutando até o fim contra o Cornwall e o Glasgow. O Dresden consegui enganar seus perseguidores sendo localizado somente em 14 de Março de 1915 pelo Glasgow e pelo Kent na Ilha de Juan Fernandez – no Chile, mas não houve batalha. O comte. do Dresden ordenou que se evacuasse o navio, e explodiu o depósito principal de munições. Era o fim do Esquadrão Asiático Alemão.

O Inflexible fundeado após a batalha, resgatando os poucos sobreviventes do Gneisenau.

Esquema da Batalha das Falklands.

Ficha técnica dos navios mencionados no artigo acima:

Grã-Bretanha

Encouraçados Pré-Dreadnough

Nome

Lançamento

Deslocamento

Velocidade

Blindagem Min / Máx.

Armamento

Classe

Canopus

13/10/1897

Padrão 13.150 tons

18 nós

2,5 /10 pol.

4 canhões de 12 pol. 12 canhões de 6 pol. 10 canhões de 3 pol. 4 TT de 18 pol.

Canopus

Cruzadores de Batalha

Nome

Lançamento

Deslocamento

Velocidade

Blindagem Min / Máx.

Armamento

Classe

Invincible

Inflexible

13/04/1907

26/06/1907

Padrão 17.600 tons

26.6 nós

26.5 nós

3 / 12 pol.

8 canhões de 12 pol. 16 canhões de 4 pol. 5 TT de 18 pol.

Invincible

 Cruzadores Blindados ou Pesados

Nome

Lançamento

Deslocamento

Velocidade

Blindagem Min / Máx.

Armamento

Classe

Good Hope

1902

14.150 tons

23 nós

3 / 6 pol.

2 canhões de 9.2 pol. 16 canhões de 6 pol. 2 TT de 18 pol.

Drake

Monmouth

Cornwall

Kent

1903

29/10/1904

06/03/1901

9.950 tons

23 nós

23.5 nós

24.1 nós

2 / 6 pol.

14 canhões de 6 pol. 8 canhões de 76 mm 3 canhões de 47 mm 2 TT de 18 pol.

Monmouth

Carnarvon

07/10/1903

11.000 tons

23.3 nós

2 / 6 pol.

4 canhões de 7.5 pol. 6 canhões de 6 pol. 20 canhões de 47 mm 2 TT de 18 pol.

Devonshire

Defence

27/04/1907

14.800 tons

23.4 nós

3 / 12 pol.

4 canhões de 9.2 pol. 10 canhões de 7.5 pol. 16 canhões de 76 mm 5 TT de 18 pol.

Minotaur

Cruzadores Leves

Nome

Lançamento

Deslocamento

Velocidade

Blindagem Min / Máx.

Armamento

Classe

Glasgow

Bristol

1909

1910

4.900 tons

25.8 nós

1 / 2 pol.

2 canhões de 6 pol. 10 canhões de 4 pol. 4 canhões de 47 mm 2 TT de 18 pol.

Bristol

 

Alemanha

Cruzadores Blindados

Nome

Lançamento

Deslocamento

Velocidade

Blindagem Min / Máx.

Armamento

Classe

Scharnhorst

Gneisenau

23/03/1906

14/06/1906

11.600 tons

23.8 nós

22.5 nós

2 / 10 pol.

08 canhões de 8 pol. 06 canhões de 6 pol. 18 canhões de 88 mm 04 TT de 17.7 pol.

Scharnhorst

Cruzadores Leves

Nome

Lançamento

Deslocamento

Velocidade

Blindagem Min / Máx.

Armamento

Classe

Königsberg

Nürnberg

Leipzig

12/12/1905

29/08/1906

21/03/1905

3.400 tons

3.470 tons

3.250 tons

24.1 nós

23 nós

23 nós

1.75 / 4 pol.

10 canhões de 4 pol. 02 TT de 17.7 pol.

Königsberg

Emden

Dresden

26/05/1908

05/10/1907

3.650 tons

24.1 nós

24.5 nós

1.75 / 4 pol.

10 canhões de 4 pol. 02 TT de 17.7 pol.

Dresden

Karlsruhe

11/11/1912

4.900 tons

29.3 nós

1.75 / 4 pol.

10 canhões de 4 pol. 02 TT de 17.7 pol.

Karlsruhe